Textos do Núcleo Zona Sul - abril de 2008 - PSOL / RJ


GERAÇÃO 68:
OS SONHOS NÃO ENVELHECEM

CHICO ALENCAR


Nesta sexta-feira, 28 de março, completam-se 40 anos do assassinato do jovem estudante Edson Luís de Lima Souto. A PM do então Estado da Guanabara, sob o comando do governador Negrão de Lima, reprimiu a tiros uma manifestação estudantil contra a má qualidade da comida servida aos estudantes pobres do Restaurante Calabouço, no centro do Rio. Mas as balas do poder ditatorial não calaram a juventude.

Aqueles finais dos anos 60 foram um encontro de águas revoltas: a crise do capitalismo, com sua face espoliativa de egoísmo industrializado, e a crise do socialismo real, com sua carranca autoritária, burocrática, de estranha justiça imposta a ferro e fogo, injustamente. Parte de nossa geração (se fosse toda ela, conseguiríamos, de fato, a revolução, "enforcando o último capitalista com as tripas do último stalinista'') viveu os seus dez anos que abalaram o mundo. E cada um chegou às barricadas com seu singular caminho.

O meu foi curioso: católico educado na rigidez dos Irmãos Maristas, fui da nave às sacristias, e dali aos salões paroquiais, onde janelas afinal abertas deixavam entrar os ventos do Concilio Ecumênico Vaticano TI, sob as bençãos do humaníssimo João XXIII. Ali descobri, apoiado por dominicanos e franciscanos, que Deus não era um enérgico Supremo Juiz, tomador de conta, a registrar num livro-caixa nossos débitos e haveres ... Aprendi, para a vida inteira, que quem ama conhece a Deus, nessa ordem mesmo: é por amor ao próximo que Deus se nos revela. Dali para a leitura da realidade com o instrumental marxista, a ser sempre atualizado, e a Teologia da Libertação, o caminho não foi longo. Ao contrário: além de rápido, foi prazeroso, prenhe de sentido de vida.

A conjuntura nacional, de opressão militar - censura, perseguição, prisão, tortura, exílio e morte - nos forjou como resistentes. Dolorosamente. ''Amigos presos, sumidos assim pra nunca mais". Tudo o que lemos, de Emmanuel Mounier a Gustavo Gutierrez, de Lênin a Caio Prado, de Graciliano Ramos a Drummond, e cantamos, de Chico Buarque a Geraldo Vandré, Ray Charles e Beatles, e proclamamos, da saga de Ganghi e Luther King à de Che Guevara, foi posto à prova. Alguns, mais frágeis, refugiaram-se no silêncio, na vida cotidiana de aceitação do imposto, na "normose". Outros, fortes e determinados, prosseguiram no enfrentamento, em meio a terrores e teimosa esperança. Muitos tiveram suas próprias vidas arrancadas pela estupidez dos opressores, que também levou muitas mentes à loucura - a daqueles que perderam tudo, menos a Razão.

Aqui relembro meus amigos pessoais Lucimar Brandão Guimarães, Marcos Pinto de Oliveira, padre Henrique Pereira Neto, Maurício da Silveira, Antônio Carlos Murari, Luiz Raimundo de Carvalho e Januário Pinto de Oliveira, que partiram precocemente. Quem cala sobre seus corpos consente nas suas mortes!

Nossa ideologia, sempre alimentada pela operação intelectual da leitura e dos debates a portas fechadas, corroeu os metais da ditadura. Ela deu suporte teórico e militância prática à eclosão de diversos movimentos sociais de operários, de camponeses, de donas de casa, de vizinhos associados que já não eram contidos pelos militares. Hoje podemos dizer que deixamos este legado maior, do fim do autoritarismo, da abertura das avenidas por onde uma nova sociedade, possível e necessária, pode ser construída. Evoé, jovens à vista! Os sonhos não envelhecem.

Mas, se soubemos minar a ditadura, não temos sabido democratizar substantivamente o Brasil, com avanços seguros na redução da desigualdade, da transparência nos assuntos públicos, da negação do poder dissolvente do dinheiro, do controle social dos meios de comunicação de massa, do combate à egolatria do "compro, logo existo", das políticas universais que cheguem como fruição de direitos inalienáveis das massas empobrecidas. Perdemos a disputa de idéias na sociedade, e o pensamento único hegemoniza corações e mentes. Não temos sabido mostrar que a política não é, necessariamente, o espaço da esperteza, das incoerências, do praticado negando o discursado, jogo pré-estabelecido entre quase iguais, torneio nada olímpico dos "telhados de vidros", onde ética e virtude são incompatíveis com as necessidades eleitorais. Livres do obscurantismo totalitário, estamos presos às formas convencionais que fazem da nossa pátria o país do PIB ainda claudicante e do PID (produto Interno do Desencanto) galopante.

Às vezes tudo isso me chega como o grande fracasso da nossa "geração 68", aquela que desatou os nós do regime de 64 ... E, lágrima não impedindo ver a estrela cadente, enxugamos o rosto para esperar, ainda uma vez, o nascer do Sol entre as densas brumas da manhã.

Nessa viagem pela memória das lutas juvenis, transcrevo [abaixo] uma carta que escrevi em 21 de janeiro de 1967, quando era pouco mais que um adolescente, para um amigo de infância do interior de São Paulo, minha terra materna. Talvez ela seja representativa do que pensava e de como vivia uma parcela da juventude urbana daquela época.
____________________________________________________________________

Guanabara, 21 de janeiro de 1967.
"Camarada Romeu:

(..) Hoje é sábado, todas as cuícas e pandeiros estão soando no Rio, os pré-carnavais se sucedem em todo o Brasil, com "tanto riso e tanta alegria'~ e eu estou "preso" num quarto em Copa, que dá para o mar, que "dá para toda a solidão do mundo" (tô usando a linguagem poética que você gosta).

O problema é que eu arranjei um emprego até o dia 31 deste. Tenho que dormir num escritório de aluguel de apartamentos para turistas. Entro às 5 da tarde e saio às 8 da manhã. Posso dormir tranqüilamente, mas se o telefone tocar. .. A coisa boa é que de dia eu vou à praia, infalivelmente, pois o prédio fica na cara da mesma. Só não posso é sair à noite. O negócio é de um primo meu (por parte de pai) e por estes 15 dias (agora faltam 10) vou faturar 40 cabrais, que vão sobrar no carnaval.

(. .. ) Minha maior distração é ler muito. É sem dúvida algo genial Como se aprende! Muito mais do que nessa caduca e desmoralizada escola brasileira. Agora mesmo o Zé Luis e o Pedro estiveram fazendo vestibular, e eram 4 mil e tantos candidatos para mil vagas. Eu estou tentando entrar para o único colégio bom da Tijuca e do estado. É uma luta. E você, safou-se de uma 2º época ? No fim a gente acaba aprendendo coisa nenhuma.

Mas nós, jovens, temos que mandar brasa. Estudemos a estrutura do nosso regime capitalista e depois entremos na luta. É o que estou fazendo. Tenho planos para uma participarão ativa na política estudantil Faro parte de um grupo chamado JEC (Juventude Estudantil Católica) e estamos comprometidos com o nosso Brasil
Não podemos viver só de sombra, acomodados, quando vemos tanta gente sem conhecer o que é carne assada, e o que é Deus.
Apesar disso eu não perco o amor por um futebol, pelo Mengo, mesmo perdendo e brigando, e pelo Bangu, que vence o Cruzeiro na moral Você não imagina a minha vontade de estar ai, de nos reunirmos antes de cada noite de carnaval e levarmos um samba. Fale para a turma do "Terror" que pode comprar minha roupa que eu estarei aí firme (...)

E você, ainda maníaco pela bossa? Assisti aqui a um show com Gilberto Gil, Sérgio Ricardo e outros. O baiano deu tudo com suas músicas Lunik-9, Roda, Louvação, Procissão, Vento de Maio e por ai.
Bom, o papo, aliás, o monólogo, acabou. Abraços no Tato, no Berto e seus pais. Um caprichado pra você e toda a turma.
Francisco"

MANDATO CHICO ALENCAR
DEPUTADO FEDERAL (PSOL/RJ) Rua Morais e Vale, 05 (Beco do Rato) Lapa - Rio de Janeiro - RJ CEP: 20021-260
Tel: (21) 2232-4413/2232-4532 sol@chicoalencar.com.br .
* www.chicoalencar.com.br



  • Núcleo Zona Sul - PSOL/RJ
  • PSOL Nacional
  • PSOL Rio
  • Deputado Federal Chico Alencar
  • Deputado Estadual Marcelo Freixo
  • Vereador Eliomar Coelho


  •